
Na semana passada muita gente compartilhou uma notícia da BBC sobre a inauguração da Universidade 42 nos Estados Unidos: a universidade sem professores. Segundo a matéria, trata-se da segunda unidade da 42. A primeira foi inaugurada em 2013 em Paris e já colhe muitos resultados.
Há inúmeros motivos para louvar essa iniciativa. É preciso muita coragem para romper com os paradigmas da educação e propor soluções radicais como essa. É inovador e ponto. A universidade (é universidade mesmo??) conseguiu realizar o sonho de muitos educadores ao concretizar um modelo de aprendizagem por projeto, gameficado, colaborativo e independente da interferência de um professor, tutor etc. Os alunos vão construindo projetos por afinidade e passando por níveis, como se estivessem num jogo. Quando chegam ao nível 21, se formam. São os próprios alunos que se avaliam. A ideia é que o aprendizado ocorra no desenvolvimento do projeto, com aqueles que estão em níveis superiores ajudando os outros a avançar.
Até aí, maravilha. O que tem me chamado a atenção é a forma como as pessoas têm repercutido essa matéria da BBC. Percebi que muita gente tem colocado a questão do “sem professor” como aquele ponto que, de uma vez por todas, vai resolver os problemas da educação. De fato, a ausência do professor faz com que os alunos desenvolvam habilidades que podem ser traduzidas aqui como “aprender a se virar”, o que para mim é uma das habilidades mais valiosas num profissional.
Mas será que a ausência do professor só traz benefícios? Durante todas essas décadas o problema sempre foi o professor e ninguém havia percebido?
O professor tem muitos papéis na educação. O que a 42 está explicitando com o seu modelo é que alguns desses papéis podem ser desempenhados por outros agentes, como os próprios alunos, ou pelo próprio programa/sistema. Nesse caso os alunos estão aprendendo de forma empírica (o que também tem seu valor), mas não se pode desprezar a experiência que um professor pode trazer.
A matéria da BBC relata que, apesar de focados e engajados no desenvolvimento do projeto, muitos alunos não se adaptam ao modelo, se frustram e se estressam ao serem avaliados por outros alunos. Ou seja, do mesmo modo que os métodos tradicionais de ensino frustram muitos estudantes, como afirma a chefe de operações Brittany Bir na matéria da BBC, o sistema da 42 também frustra outros estudantes. E isso é normal. A educação é pessoal. Uns vão gostar de não ter professor, outros não, e isso não tem a ver com a geração.
É preciso lembrar ainda que se a solução para a educação fosse simplesmente colocar muitos alunos para estudar juntos sem professor, os MOOCs já teriam resolvido essa parada. A grande sacada da 42, repito, foi:
concretizar um modelo de aprendizagem por projeto, gameficado, colaborativo e independente da interferência de um professor.
Outro ponto que me chamou a atenção foi a comparação da 42 com empresas como Airbnb e Uber, como modelo de negócio exponencial. Tenho visto essa comparação na repercussão da matéria. Que fique claro, a matéria não faz essa comparação.
O que o Airbnb, Uber, Waze e outras empresas resolveram e com isso tornaram-se exponenciais foi a questão da propriedade. O Airbnb não possui os imóveis, o Uber não possui os carros e o Waze não possui os navegadores. Nenhuma universidade “possui” professores e, mesmo num modelo de contratação, o professor pode abandonar qualquer universidade sem dar muita explicação. As universidades também não possuem o conhecimento. Portanto, não “possuir” professores já faz parte do modelo de negócio. Então o que impede o crescimento exponencial da 42? Na minha opinião: o campus. Entendo que a 42 estaria moldando um modelo de negócio exponencial se não precisasse possuir o campus, os computadores etc.
Enfim, acredito que a 42 está sim criando uma disruptura na educação, mas não pela ausência dos professores ou pelo modelo de negócio, mas sim por criar um modelo incrível de aprendizado colaborativo, auto motivado e muito instigante.
Link para a matéria da BBC: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37797400