O verdadeiro desafio de colocar aprendizados em prática

learnabout.com.br

Em 2012 participei de um workshop que ensinava aos participantes uma metodologia de comunicação corporativa muito eficiente. Em resumo, o uso dessa metodologia ajuda a apresentar de forma muito convincente uma ideia ou proposta. Meu objetivo, na época, era de entender o workshop presencial para propor uma estratégia para transformá-lo numa experiência online, o que não aconteceu naquela época porque os interesses das duas empresas se afastaram.

Mas eu fiquei realmente empolgado com a metodologia e nas semanas que se seguiram apliquei esse novo conhecimento no meu dia a dia. Obtive sucesso em reuniões importantes na época com a ajuda dessa metodologia. Recebi, inclusive, feedback de colegas dizendo que a forma diferente como apresentei determinada proposta havia sido muito eficiente.

O mais incrível dessa história é que, poucas semanas depois do workshop e de eu ter experimentado os benefícios de ter colocado essa metodologia em prática, aos poucos fui deixando de utilizá-la.

Então, só para entendermos:

  • Eu participei de um workshop no qual aprendi uma metodologia que me encantou.
  • Eu consegui colocar em prática a metodologia e experimentei o doce gosto do sucesso por conta disso.
  • Eu deixei de usar a metodologia.

Aparentemente o workshop havia vencido uma das mais cruéis barreiras que todo treinamento enfrenta: Fazer com que o novo conhecimento ou habilidade seja aplicado no dia a dia, melhorando o desempenho do aluno na vida real.

Mas não foi isso o que aconteceu.

De fato, a transferência do aprendizado é um dos grandes desafios da educação corporativa. E não é para menos, se uma empresa investe em um treinamento, o esperado é que essa iniciativa dê resultados no campo e para isso os colaboradores precisam estar aptos e seguros para aplicar os novos conhecimentos.

Também é fato que poucas equipes e consultorias conseguem dar respostas concretas ou soluções de verdade para essa questão. E isso se dá porque não é possível criar uma fórmula que se aplica a qualquer iniciativa de capacitação para promover a aplicação do aprendizado. Não é possível criar soluções de prateleira para isso. E normalmente, nem equipes de educação corporativa nem consultorias têm o tempo necessário para se aprofundar o suficiente nos projetos para trazer essa solução.

Essa experiência me fez refletir sobre esse ponto e, mais do que nunca, confirmou para mim duas bandeiras que sempre levantei: 1) colocar-se na pele do público alvo é fundamental para conseguir tratar esse tipo de problema; e 2) traduzir os seis princípios da andragogia em soluções simples e aderentes ao público dificilmente te dará uma solução ruim.

Naturalmente, eu só me dei conta de que havia deixado de usar a metodologia quatro anos depois. Voltei a ter contato com a consultoria criadora da metodologia e agora, em carreira solo, criamos a versão online, não sem antes refletir muito sobre o que eu acabei de contar.

Nesse momento você pode estar se perguntando: o que então fizemos para ajudar os nossos futuros alunos a não deixarem de aplicar a metodologia, imaginando que eles também se encantarão com ela.

Basicamente, percebi três coisas. Apesar de o workshop pregar que a metodologia pode ser utilizada para muitos temas, o aluno pode não se convencer de que os seus próprios temas podem ser objeto da metodologia. Para isso, compilamos uma série de casos reais de aplicação prática da metodologia. Outro ponto importante foi deixar mais claro os benefícios que podem ser alcançados, por meio de depoimento e entrevistas gravadas com profissionais de diversas áreas que já utilizaram a metodologia. O terceiro ponto tem a ver com facilitar a aplicação. Para isso, inserimos no workshop um módulo que traz um procedimento coringa, um passo a passo do que deve ser feito.

Universidade sem professor?

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Na semana passada muita gente compartilhou uma notícia da BBC sobre a inauguração da Universidade 42 nos Estados Unidos: a universidade sem professores. Segundo a matéria, trata-se da segunda unidade da 42. A primeira foi inaugurada em 2013 em Paris e já colhe muitos resultados.

Há inúmeros motivos para louvar essa iniciativa. É preciso muita coragem para romper com os paradigmas da educação e propor soluções radicais como essa. É inovador e ponto. A universidade (é universidade mesmo??) conseguiu realizar o sonho de muitos educadores ao concretizar um modelo de aprendizagem por projeto, gameficado, colaborativo e independente da interferência de um professor, tutor etc. Os alunos vão construindo projetos por afinidade e passando por níveis, como se estivessem num jogo. Quando chegam ao nível 21, se formam. São os próprios alunos que se avaliam. A ideia é que o aprendizado ocorra no desenvolvimento do projeto, com aqueles que estão em níveis superiores ajudando os outros a avançar.

Até aí, maravilha. O que tem me chamado a atenção é a forma como as pessoas têm repercutido essa matéria da BBC. Percebi que muita gente tem colocado a questão do “sem professor” como aquele ponto que, de uma vez por todas, vai resolver os problemas da educação. De fato, a ausência do professor faz com que os alunos desenvolvam habilidades que podem ser traduzidas aqui como “aprender a se virar”, o que para mim é uma das habilidades mais valiosas num profissional.

Mas será que a ausência do professor só traz benefícios? Durante todas essas décadas o problema sempre foi o professor e ninguém havia percebido?

O professor tem muitos papéis na educação. O que a 42 está explicitando com o seu modelo é que alguns desses papéis podem ser desempenhados por outros agentes, como os próprios alunos, ou pelo próprio programa/sistema. Nesse caso os alunos estão aprendendo de forma empírica (o que também tem seu valor), mas não se pode desprezar a experiência que um professor pode trazer.

A matéria da BBC relata que, apesar de focados e engajados no desenvolvimento do projeto, muitos alunos não se adaptam ao modelo, se frustram e se estressam ao serem avaliados por outros alunos. Ou seja, do mesmo modo que os métodos tradicionais de ensino frustram muitos estudantes, como afirma a chefe de operações Brittany Bir na matéria da BBC, o sistema da 42 também frustra outros estudantes. E isso é normal. A educação é pessoal. Uns vão gostar de não ter professor, outros não, e isso não tem a ver com a geração.

É preciso lembrar ainda que se a solução para a educação fosse simplesmente colocar muitos alunos para estudar juntos sem professor, os MOOCs já teriam resolvido essa parada. A grande sacada da 42, repito, foi:

concretizar um modelo de aprendizagem por projeto, gameficado, colaborativo e independente da interferência de um professor.

Outro ponto que me chamou a atenção foi a comparação da 42 com empresas como Airbnb e Uber, como modelo de negócio exponencial. Tenho visto essa comparação na repercussão da matéria. Que fique claro, a matéria não faz essa comparação.

O que o Airbnb, Uber, Waze e outras empresas resolveram e com isso tornaram-se exponenciais foi a questão da propriedade. O Airbnb não possui os imóveis, o Uber não possui os carros e o Waze não possui os navegadores. Nenhuma universidade “possui” professores e, mesmo num modelo de contratação, o professor pode abandonar qualquer universidade sem dar muita explicação. As universidades também não possuem o conhecimento. Portanto, não “possuir” professores já faz parte do modelo de negócio. Então o que impede o crescimento exponencial da 42? Na minha opinião: o campus. Entendo que a 42 estaria moldando um modelo de negócio exponencial se não precisasse possuir o campus, os computadores etc.

Enfim, acredito que a 42 está sim criando uma disruptura na educação, mas não pela ausência dos professores ou pelo modelo de negócio, mas sim por criar um modelo incrível de aprendizado colaborativo, auto motivado e muito instigante.

Link para a matéria da BBC: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37797400

Sete lições aprendidas no HSM Business Lab

bussiness-labEntre os dias 5 e 9 de novembro acompanhei de perto o HSM Business Lab. Nesse workshop, 16 jovens, divididos em quatro grupos tinham como desafio reinventar a plataforma de educação executiva online do grupo HSM, o HSM Experience. Dia 9 de novembro foi a linha de chegada, com a apresentação dos projetos para uma banca formada por profissionais experientes de diversas áreas do mercado de educação.

Meu papel nesse business lab foi o de mentor em e-learning e educação online. A ideia é que eu levasse para os participantes minha experiência nessa área. Mas, como não podia deixar de ser, eu aprendi muito mais do ensinei.

Consolidei sete aprendizados abaixo. Espero que façam sentido para você também:

  • Divisão de papéis só quando importa.

Para explicar esse ponto, preciso contar que entre os 16 jovens havia quatro designers, quatro desenvolvedores e oito jovens voltados a pensar o negócio. Sendo assim, cada grupo contava com um desenvolvedor, um designer e dois participantes voltados ao negócio. No entanto, houve momentos em que todos eram designers, todos pensavam o negócio e todos eram desenvolvedores. As ideias fluíam numa velocidade incrível e paredes e páginas em branco se enchiam rapidamente com esquemas, muitas perguntas e algumas respostas. Mas em determinado momento, cada um assumia o seu papel original e os projetos ganhavam forma. Ganhavam forma para perdê-la em seguida, quando o espiral criativo recomeçava. E assim os projetos foram sendo lapidados até a apresentação final para a banca.

  • Arrume suas ideias. Quando der, arrume sua mesa.

Cada um dos quatro grupos tinha sua dinâmica própria de trabalho, alguns trabalhavam de pé desenhando suas ideias nas paredes, enquanto outros sentados em torno da mesa discutiam os melhores caminhos, fazendo anotações diretamente no notebook ou tablet. Mas o fato interessante é que todos os grupos faziam pequenas pausas para organizar suas coisas e suas mesas de trabalho, como se para encontrar alguma coisa ali perdida. Mesa arrumada, voltavam às ideias. Essa pausa dava um descanso ao cérebro, trazia um pouco de paz aos mais metódicos, mas simplesmente harmonizava o grupo, preparando-os para uma nova rodada de caos.

  • Se uma coisa não deu certo antes, não significa que não pode dar certo agora.

Os mentores neste business lab tinham o papel de trazer referências. E nos mantivemos firmes nesse propósito, a despeito de nossa vontade de contar como determinado projeto ou produto obteve sucesso ou fracasso por conta de algum fator específico trazido pelos grupos. No entanto, os questionamentos dos jovens me levaram a concluir que um produto, recurso ou ideia que já fracassou no passado, se submetido a um novo contexto, deve ser considerado como novo. Muitas vezes uma única pequena diferença pode ser a fronteira entre o sucesso e o fracasso, e a cabeça dos 16 jovens estavam cheias dessas pequenas diferenças.

  • Colaborar não significa competir contra si próprio.

De maneira proposital, o pessoal da Eureca, empresa responsável pela condução da dinâmica do HSM Business Lab, deixou os grupos de trabalho próximos uns aos outros. O curioso é que, mesmo sabendo que se tratava de uma competição, os jovens acabavam interferindo, contribuindo com as ideias dos outros grupos, pois em alguns momentos era inevitável escutar suas discussões. Essas contribuições eram momentos incríveis de aceleração dos projetos e abertura de novos pontos de vista. E quanto mais os grupos contribuíam entre si, mais eles estavam abertos a dar e receber contribuições. É comum atualmente ver empresas, departamentos, equipes com receio de contribuir, pois entendem que isso pode simplesmente colocar o outro em vantagem. Esses jovens provaram que isso pode ser diferente.

  • É preciso coragem para abandonar uma ideia.

Sem sombra de dúvida, o momento decisivo para os grupos foi a hora de definir como seria o produto. Por essa escolha passava a angústia de olhar para uma série de excelentes ideias e manter no projeto aquelas que representavam a solução para que o “cliente-chave” de cada grupo pudesse resolver seus problemas. Ali eu pude perceber como é doloroso deixar boas ideias de lado em escala. Provavelmente esse foi um dos fatores determinantes para o sucesso dos grupos.

  • Tenha o importante na cabeça, o resto anotado.

Ou, em outras palavras: mantenha o foco nos conceitos importantes para a construção da sua solução, naquilo que verdadeiramente você quer ou precisa resolver. Como sabemos, a internet é alimentada diariamente com uma quantidade inacreditável de informações. A boa notícia é que ela está sempre lá para ser consultada. No momento da construção de uma solução, mantenha na cabeça aqueles conceitos que serão o diferencial do que você está construindo.

  • Uma competição pode não ter perdedores.

Essa não teve. Teve sim uma equipe escolhida pela banca como projeto vencedor, mas todos os projetos trouxeram ideias inovadoras. Maneiras de abordar os clientes, recursos, formas de monetização… Vimos de tudo nas apresentações e tudo com muito sentido.

Em resumo, foram cinco dias muito intensos, mas também muito ricos em excelentes ideias, muitas risadas e aprendizado para todos os participantes. O projeto, sem dúvida, atingiu seu objetivo: conectar a HSM cada vez mais com mentes jovens e totalmente digitais.

Uma pausa para começar a funcionar

pausa_cafeThomas Friedman, colunista do New York Times e autor de livros consagrados como “O mundo é Plano” palestrou nesta segunda-feira na estação Insights da HSM Expo 2016. Neste evento ele falou sobre seu mais recente livro: “Thank you for being late”. O nome, apesar de provocativo, é bem literal quanto ao significado que o autor quis dar à obra. Refere-se a uma reflexão de quando, em certa ocasião, esperava num café por alguém com quem teria uma reunião. Essa pessoa se atrasou alguns minutos. Naqueles poucos minutos, Mr Friedman, parou para observar as pessoas ao seu redor e se deu conta de que há muito tempo ele simplesmente não fazia esse exercício mais do que trivial.

Quando a pessoa que esperava chegou ele a agradeceu: “obrigado por ter se atrasado”. A reflexão que ele fez em seguida é muito marcante:

“Quando você pausa uma máquina, ela para. Quando você pausa uma pessoa, ela começa a funcionar”.

Particularmente essa frase fez muito sentido para mim no momento de carreira que eu decidi ter. Há cerca um mês, deixei minha cadeira de executivo numa grande empresa de educação online para empreender e me dedicar a ajudar empresas e profissionais a empreender no mundo da educação digital. Ao pausar a rotina corporativa, “comecei a funcionar”. Não lembro de outra fase na minha carreira em que tenha lido tantos livros, feito tantos contatos interessantes e trocado e lapidado tantas ideias.

Obviamente não é necessário largar a rotina para dar uma pausa. É claro que um período de férias pode ajudar, mas pense que é possível incorporar esses momentos de pausa na sua rotina, como aconteceu acidentalmente com Friedman no café. Isso pode significar a leitura de uma reportagem, um papo descontraído e informal com um amigo ou colega, uma visita à livraria para ver os lançamentos, enfim, essa pausa deve ser sua e proporcionar um momento para contemplar e refletir sobre a sua vida e o mundo que o cerca.

Você também vai agradecer por isso.

Aprendizagem em vez de Educação

Em leituras recentes tenho encontrado diversas linhas de pensamentos muito provocativas em relação à forma como entendemos o mundo e como nos preparamos para realizar coisas relevantes nesse mesmo mundo.

“Relevantes”, nesse contexto, significa iniciativas que atingem resultados expressivos e que mudam a relação de escala entre os recursos necessários para que tais resultados sejam alcançados. Que são dignas de estudo.

Uma dessas leituras me levou ao site da Wired, a um artigo sobre os princípios da MIT Media Lab de Joi Ito. Permitam-me copiar e colar para facilitar a nossa vida (coloco o link no final do texto):

  • Resilience instead of strength, which means you want to yield and allow failure and you bounce back instead of trying to resist failure.
  • You pull instead of push. That means you pull the resources from the network as you need them, as opposed to centrally stocking them and controlling them.
  • You want to take risk instead of focusing on safety.
  • You want to focus on the system instead of objects.
  • You want to have good compasses not maps.
  • You want to work on practice instead of theory. Because sometimes you don’t why it works, but what is important is that it is working, not that you have some theory around it.
  • It disobedience instead of compliance. You don’t get a Nobel Prize for doing what you are told. Too much of school is about obedience, we should really be celebrating disobedience.
  • It’s the crowd instead of experts.
  • It’s a focus on learning instead of education.

O primeiro ponto que me chamou a atenção foi a objetividade desses nove pontos (Joi Ito diz no artigo que ainda estão trabalhando nisso). Mas dois desses princípios são especialmente interessantes (para mim que gosto muito de estudar a educação e formas de aprendizagem):

– “Você precisa de boas bússolas, não mapas”

– “Focar em aprendizagem, em vez de educação”

Num modo de ver o mundo aberto, focado nos sistemas, na prática e desobediente, como dizem os demais princípios, as bússolas são de fato mais importantes que os mapas. Eu entendo os mapas aqui como uma metáfora para a base de conhecimento instalada. Ou seja, tudo o que já descobrimos sobre uma região está lá, desenhada, representada no mapa. Mas isso não necessariamente vai te dizer para onde ir. As bússolas, você mesmo constrói e aperfeiçoa. Uma vez definido o Norte da sua iniciativa, você vai definir os instrumentos que te ajudarão a traçar sua rota. E nesse processo, você tem que aprender.

E isso nos leva ao ponto “aprendizagem em vez de educação”. Confesso que eu “buguei” por alguns minutos quando li pela primeira vez. Todas as definições de educação, aprendizagem, aprendizado etc colidiram rapidamente. Mas em seguida eu li a seguinte frase, também de Ito, que complementa esse princípio:

“Educação é algo que está pronto para você. Aprendizagem é algo que você faz para si próprio”.

Seria o Mapa e a Bússola?

Sim, terminei com uma pergunta. Vamos nos divertir nos comentários?

Olha o link da Wired: https://www.wired.com/2012/06/resiliency-risk-and-a-good-compass-how-to-survive-the-coming-chaos/