Como escrever um bom Estudo de Caso

A expressão “Estudo de Caso” caiu no gosto dos designers instrucionais, professores, tutores etc, mas é corriqueiramente utilizado para definir qualquer estrutura narrativa que simplesmente conte uma história. Seja um exemplo ou a descrição de uma situação e normalmente é seguida por questionamentos como forma de exercício.

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O objetivo de um caso é fazer o aluno pensar, criar suas hipóteses, discutir e defender suas próprias ideias.

Nada contra. Eu acredito inclusive que a criatividade do designer instrucional nunca deva ficar limitada a definições conceituais. Mas o fato é que o método de caso traz benefícios muitos poderosos para o processo de educação de adultos e, se a ideia é aproveitar esses benefícios, existem algumas características importantes que precisam ser observadas.

São essas características, na verdade, que definem um Estudo de Caso legítimo e o diferencia de exemplos, histórias e “cases”. Antes de continuar, queria registrar que eu acredito que os exemplos e histórias não são uma forma de entrega ruim. Ambos são recursos importantes no processo didático, mas não substituem um Estudo de Caso, quando este é proposto como solução.

As Características de um Estudo de Caso.

Segundo o “Manual de Estudo de Caso”, do professor da Harvard Business School, Willian Ellet (leitura obrigatória para quem quer trabalhar com o método de casos), para cumprir sua função, um estudo de caso deve apresentar três características fundamentais:

  • Uma ou mais questões significativas.

Por “Questões significativas” entenda que um estudo de caso deve tratar de algo importante: um diagnóstico, um problema ou uma decisão não trivial. Um caso desprovido dessa questão significativa não tem valor educacional.

  • Informações suficientes para basear conclusões.

Um caso não pode ser simplesmente uma charada. Ele deve sempre trazer uma base factual apropriada. “Apropriada” é a palavra-chave aqui. O caso deve trazer informações suficientes, mas sempre respeitando a terceira característica:

  • Ausência de conclusões manifestas.

O objetivo de um caso é fazer o aluno pensar, criar suas hipóteses, discutir e defender suas próprias ideias. Nesse caso, se há uma verdade prevalecente no texto, o valor educacional fica comprometido.

No próximo post, vou abordar alguns mitos e verdades sobre a redação de bons estudos de caso, segundo o método de caso.

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Por que o designer instrucional precisa conhecer o estudo de caso

estudo de caso postNesse post quero iniciar uma sequência de artigos para falar das estratégias educacionais baseadas em casos, ou no método de caso. E preciso começar com uma confissão: estratégias que envolvem casos são as minhas favoritas. Um bom caso (e prometo discutir o que é um bom caso nos próximos posts) é simplesmente muito estimulante e, se você já se deparou com o desafio de criar uma trilha de aprendizagem, talvez já tenha percebido como um caso pode ser um fortíssimo aliado para sustentar as diversas intervenções de aprendizagem necessárias a um programa longo ou mesmo àqueles mais curtos.

“A metodologia de estudo de caso permite que se faça links diretos com os seis princípios fundamentais da andragogia.”

Essencialmente, a metodologia de estudo de caso permite que se faça links diretos com os seis princípios fundamentais da andragogia. E, se você fez um bom trabalho de mapeamento do seu público alvo (se não fez, nem precisa continuar), esses links serão fundamentais para que sua estratégia educacional atinja os objetivos traçados. Fiz um resumo abaixo dos benefícios que podemos alcançar utilizando o método de caso:

  • O aluno precisa utilizar sua bagagem pessoal.

Num caso bem construído, ou seja, que traz uma questão empresarial* significativa, e que é dirigido a um público bem estudado, o aluno entenderá que a sua experiência pessoal ou profissional será ponto fundamental para resolução do caso. Esse é um fator que eleva muito o engajamento, pois o aluno percebe que a iniciativa educacional valoriza seus conhecimentos no momento de propor um novo ciclo de aprendizagem.

  • O caso desafia o aluno.

Aqui eu volto a falar da questão empresarial significativa. Um caso bem estruturado precisa tratar de questões desafiadoras, inteligentes e, claro, possíveis. Um bom desafio, na medida certa, aumentará a sensação de conquista do aluno e o vai estimular a encarar novos ciclos de aprendizagem.

  • O caso aproxima a aprendizagem do mundo real e dos “problemas de verdade”.

Há quem goste de estratégias baseadas na exposição de teorias, mas, sem dúvida, o aluno adulto estará mais propenso a embarcar numa iniciativa educacional quando esta ajudá-lo a resolver os problemas do dia a dia.

  • O caso promove a construção do conhecimento.

Ou seja, o aluno aprende conforme trabalha para dar as respostas necessárias ao caso. Esse é o ponto fundamental que faz dos casos o motor das principais metodologias ativas, utilizadas há muito tempo em salas de aula e que mais recentemente têm migrado com tanto sucesso para o meio digital.

  • O caso permite aprender por meio da diversidade.

Esse quinto ponto é na verdade um desdobramento dos anteriores. As melhores estratégias que utilizam o método de caso preveem a colaboração entre os alunos, o que traz mais bagagens, mais visões distintas da mesma realidade e mais formas de construção de conhecimento para a mesma experiência educacional.

Nos próximos posts vou explorar os seguintes temas:

– Os tipos de caso do método de caso e como as variantes podem ser utilizadas com finalidades educacionais diferentes.

– As características que definem um caso, ou seja, o que diferencia um caso legítimo de um exemplo ou de uma história.

Ainda não defini a ordem. Me ajude a escolher nos comentários abaixo.

Até o próximo post.

(*) Questão empresarial significativa é um termo utilizado por William Ellet no livro “Manual do Estudo de Caso” – baseado na metodologia da Harvard Business School. Por questão empresarial significativa entenda uma questão relevante para o contexto educacional apresentado. Se trata-se de um caso médico, a questão deve ser significativa para esse público ou contexto, e assim por diante.

Designer Instrucional: qual o futuro da profissão do futuro?

Estou na área de educação online há mais de dez anos e desde o início escuto dizer que Designer Instrucional é uma das profissões do futuro. Nesta semana voltei a ler essa máxima. O curioso dessa afirmação é que, ao mesmo tempo que é fácil concordar com ela, à medida que as iniciativas educacionais estão ultrapassando as fronteiras dos AVAs e das salas de aula –  entrando com os dois pés em estratégias de marketing digital, por exemplo – é irônico olhar para trás e lembrar que essa profissão é relativamente antiga.

Muitos profissionais desta área se preparam para a profissão do futuro com técnicas e práticas do passado.

Claro, somente há pouquíssimo tempo foi regulamentada pelo ministério do trabalho, ganhando seu próprio CBO (como sinônimo de Designer Educacional), mas sabemos que há muitos anos os designers instrucionais já estão por aí, estruturando a mais variada gama de materiais didáticos que você possa imaginar.

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Você não precisa das mais incríveis parafernálias tecnológicas para criar atividades altamente engajadoras.

Naturalmente, toda essa euforia ao redor do Design Instrucional tem atraído mais e mais profissionais o que torna nosso mercado cada vez mais rico e competitivo. No entanto, o que podemos notar é que muitos profissionais desta área, tanto os novos quanto aqueles que já estão há mais tempo, se preparam para a profissão do futuro com técnicas e práticas do passado.

Deixo aqui então cinco dicas para os Designers Instrucionais se prepararem para o futuro da profissão do futuro:

  • Seja mais “Designer” do que “Instrucional”

A ideia aqui é fazer uma clara alusão à abordagem de Design Thinking, centrada no aluno e nas suas necessidades. Em outras palavras, pense em como você poderá ajudar o seu aluno a aprender, considerando suas preferências, contexto etc e não em como você ou sua empresa gostaria de ensiná-lo.

  • Cuide da experiência e não dos requisitos.

Existem diversas metodologias que ajudam o designer instrucional a criar um bom modelo educacional. No entanto, na hora de traduzir o modelo em ações práticas, muitos DIs acabam se preocupando mais com os requisitos do que em construir uma experiência incrível, uma jornada para o seu aluno. Escrevi esse post há algum tempo que pode ajudar a aprofundar esse tópico (Aprendizagem em vez de educação).

  • Pense na atividade antes de pensar na ferramenta.

Você não precisa das mais incríveis parafernálias tecnológicas para criar atividades altamente engajadoras. É possível criar experiências incríveis usando ferramentas muito simples, que todos têm acesso. Uma das experiências educacionais mais gratificantes e engajadoras que eu já criei usava um simples fórum como ferramenta.

  • Tenha postura consultiva sempre.

Sempre aqui é sempre mesmo. Na mais abrangente concepção da palavra “sempre”. Por mais simples que seja a atividade que você esteja desempenhando, há sempre espaço para questionamentos. Um bom DI (e isso vale para todas as profissões) sabe porque está colocando cada vírgula no seu projeto.

  • Pense no projeto como um todo.

Se você trabalha numa “Fábrica de Conteúdo” já entendeu que essa dica, que parece muito óbvia, muitas vezes se torna um verdadeiro desafio quando o modelo fordista bate à sua porta. O ponto é: depende de você abraçar a linha de produção e apertar os parafusos que mandaram você apertar ou se preocupar em entender o contexto, os detalhes e ser um profissional de verdade.

Webinars: dicas práticas para quem vai começar

Os webinars estão cada vez mais populares, seja como instrumentos para entrega de conteúdos em estratégias de marketing digital, ou como parte de uma estratégia maior de um programa de educação online.

Recentemente, vivenciei esses dois formatos provendo ou ministrando aulas em cerca de vinte sessões e a minha conclusão é de que, quando bem utilizados, os webinar são poderosíssimas ferramentas de aprendizagem, ou de apoio à aprendizagem.

Nesse post, compartilho algumas dicas práticas que consolidei e testei nessas últimas semanas.

Dicas práticas para melhorar seus webinars:

Com base na experiência recente, criei essa pequena lista de boas práticas que podem ser adotadas por quem vai experimentar pela primeira vez, ou por quem já utiliza os webinars em suas soluções:

Não economize na comunicação. As pessoas têm agendas cada dia mais complicadas. Por isso, é importante que você envie o “Save the Date” com bastante antecedência, três semanas por exemplo. Na sequência, reforce a comunicação uma semana antes da aula, um dia antes e uma hora antes. Nesses dois e-mails mais próximos da aula envie novamente o link de acesso e os objetivos da aula.

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Exemplo de tela de espera que usei num webinar.

Inicie a transmissão antes do horário. A transmissão, não a aula. A dica aqui é criar uma tela de espera, com algumas informações básicas, como título e objetivo da aula, nome do professor, o horário em que a aula efetivamente vai começar. Isso é importante porque muitos alunos têm dificuldade em acessar as plataformas de webinar e, assim que entram, ficam tranquilos ao perceber pela tela de espera que a conexão está ok.

 

Programe-se para ajudar os alunos nos primeiros minutos. Por mais intuitiva que seja a sua plataforma, muitos alunos precisarão de ajuda técnica para alguns detalhes como habilitar microfone, visualizar determinados recursos ou até mesmo entender o modelo de interação que você planejou. Antecipe-se e tenha as principais respostas prontas.

Receba bem os seus alunos. Estamos falando de acolhida mesmo. Imagine que você está numa sala de aula presencial e que seus alunos vão entrando na sala. Você não vai dizer “bom dia”? E se a ferramenta que você escolheu permite a interação dos alunos, não as ignore. Isso seria como um balde de água fria.

Planeje a aula com momentos de interação. Na prática, o que vai diferenciar um webinar de um vídeo gravado que tem hora certa para passar é o quanto os seus alunos conseguirão participar, interagir, perguntar e responder. Crie provocações, pergunte a eles o que eles acham sobre determinado tema antes de você dizer a sua opinião. Você vai perceber como isso enriquece muito a aula.

Talvez você precise de ajuda.

Se você vai iniciar no mundo dos webinar como professor ou provedor de conteúdo, é muito provável que venha a precisar de alguma ajuda durante as primeiras sessões. Eu precisei. Foram dois pontos principais:

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Bastidores de um webinar: professor + professor assistente. facilitação e apoio à aprendizagem

Operar a ferramenta que gera o webinar. Desde configurar corretamente, a utilizar os diversos recursos. Esse ponto você pode treinar sozinho. Recomendo que você se mantenha no campo da simplicidade no início e, conforme for adquirindo mais desenvoltura, adicione ações mais sofisticadas à aula.

Facilitar as interações dos alunos “e” dar aula ao mesmo tempo. Infelizmente não é possível simular como os alunos vão interagir. A experiência deverá ser adquirida ao longo das aulas de verdade. A minha dica aqui é: (se possível) tenha alguém logado na aula te ajudando como se fosse um professor assistente. Apresente esse professor assistente para os alunos e com certeza sua aula vai fluir melhor.

 

Marinheiro de primeira viagem? Não se afogue.

Acredito que as três maiores dificuldades que você terá realizando um webinar serão essas:

– Gerenciar a ferramenta ao longo da aula, apresentando slides, vídeos, a sua câmera etc nos tempos certos, sincronizados com o seu plano de aula. Dica: comece simples.

– Aprender a lidar com o delay. Sim, na maioria das ferramentas o seu aluno não estará ouvindo/vendo você em tempo real. Haverá sempre alguns segundos de atraso e esse atraso é diferente para cada um dos seus alunos presentes à sessão. É importante lembrar disso na hora de planejar as interações. Se seus alunos estão demorando a interagir, provavelmente esse é o problema. Dica: evite deixar períodos de silêncio. Por exemplo: quando fizer uma pergunta, prossiga dizendo aos alunos o quanto aquela pergunta é importante para o contexto da aula, até começarem a aparecer as primeiras respostas.

– Falar para a câmera. É mais fácil do que gravar videoaulas, com certeza. Mas dar uma aula mais longa sem ter aquele feedback imediato dos alunos (ou seja, suas expressões faciais) às vezes pode te levar a questionar se a aula está num caminho bom. Dica: provoque feedbacks constantes durante a aula ou tente ler isso nos momentos de interação.

A sala de aula invertida sem a sala.

Sem dúvida, a situação mais rica do ponto de vista educacional é quando utilizamos o webinar como parte de um programa de treinamento ou educação digital, combinado com outras estratégias. Você pode simplesmente escolher um momento e parte de um conteúdo para expor ao longo de uma trilha, pode criar sessões “tira-dúvidas”, enriquecer sua solução blended ou até mesmo utilizar a estratégia da sala de aula invertida, mesmo num programa 100% digital. Ou seja, seus alunos podem ter contato com os conceitos nas atividades assíncronas (vídeos, htmls, games etc) e praticar esses conceitos numa sala de aula virtual, com apoio dos colegas e do professor. Essa foi a estratégia que usei nas iniciativas que vivenciei nas últimas semanas e os resultados não poderiam ter sido melhores.

Entre os benefícios que percebi nesses webinars, destaco os seguintes:

Favorece a aproximação entre alunos e professor. O conteúdo deixa de ser visto como algo estanque e a relação volta a ganhar contornos mais humanizados, fortalecendo os elos emocionais da aprendizagem.

Cria-se um claro momento de apoio ao processo de aprendizagem. Momento em que os alunos podem esclarecer pontos dos conceitos apresentados por outras mídias do programa oferecido, com bastante liberdade para perguntar e estressar qualquer ponto.

Cria-se um momento em que alunos e professor podem trocar experiências, aprender com situações já vividas tanto pelo professor quanto pelos alunos. Torna possível ainda que o aluno tenha a oportunidade de entender como determinado conceito pode ser aplicado numa situação específica do seu dia a dia.

Cria-se um compromisso, uma agenda. Principalmente no modelo de tira-dúvidas ou de sala de aula invertida, a realização de atividades prévias favorece que o aluno passe a ter compromissos com o curso além do deadline de conclusão. Fator importante para favorecer o engajamento e o progresso do aprendizado numa velocidade que respeite o ritmo dos alunos, mas que impeça a procrastinação exagerada.

Em outras palavras, usar o webinar como parte de uma estratégia educacional maior aproxima sua iniciativa educacional dos princípios da andragogia, o que vai destacar os fatores de relevância do seu curso, melhorar a experiência do aluno e favorecer a conexão entre os alunos, entre alunos e professor e entre os alunos e as diversas aplicações dos conceitos estudados.

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O que é um webinar?
Há diversos formatos de aulas online que podem ser chamadas de webinar. No entanto, o mais comum é que o webinar se caracterize por ser uma aula ao vivo, transmitida via ferramentas específicas para captura e streaming, utilizando uma webcam, pela qual o professor dá a aula interagindo com os alunos e utilizando capturas de telas, apresentações de PowerPoint ou outros recursos digitais, pela internet (algumas empresas transmitem via satélite).
Não vou me prolongar na definição por dois motivos: 1) Há diversas outras formas de realizar um webinar, com mais ou menos recursos; e 2) O que importa aqui é o efeito, o impacto, que essa estratégia causa nas iniciativas educacionais e não sua definição teórica/técnica.
Na prática, estamos falando de um meio termo entre a educação em sala de aula (presencial e síncrona) e o que o mercado se acostumou a chamar de e-learning (a distância, online e assíncrono).

Quatro dicas de comunicação para educação digital nas empresas.

Tem sido cada vez mais comum encontrar artigos, vídeos, posts etc que falam sobre os padrões de comunicação entre plataforma e cursos online. Se você já trabalha com educação corporativa online, certamente está familiarizado com termos como Scorm, TinCan, AICC etc.

De fato, esses padrões são importantes para que um curso, ou qualquer outro tipo de mídia que você esteja usando no seu projeto funcionem corretamente e guardem aqueles parâmetros que foram escolhidos para garantir a interatividade e, futuramente, as métricas do projeto.

No entanto, o que se percebe é que muitas vezes essa ponte entre plataforma e curso é planejada exclusivamente no nível de tecnologia. E mesmo em projetos muito bem planejados para um determinado público alvo, detalhes simples acabam não sendo executados pela equipe de planejamento instrucional, o que prejudica a preparação do aluno para o aprendizado e, em seguida, o seu envolvimento com o curso e o seu engajamento.

Estou falando de detalhes pequenos mesmo, como se preocupar em escrever uma ementa (ainda na plataforma) que será bem compreendida pelo aluno, criar tanto na plataforma quanto na entrada do curso links que ajudem o aluno a compreender o que ele deve fazer, o quanto ele deve se dedicar e o que vai mudar na vida dele depois do curso.

Aqui vão algumas dicas bem simples (mas nem sempre lembradas):

  • Use a comunicação para confortar o aluno. Por exemplo: se você identificou na análise do público alvo que um problema para esse aluno é tempo, diga, antes de mais nada, quanto tempo ele vai precisar para passar por cada módulo.
  • Use a comunicação para otimizar o esforço do aluno. Por exemplo: se você estratificou o conteúdo por relevância, mostre para o aluno como ele pode identificar o caminho mais curto para o objetivo dele dentro do curso.
  • Use a comunicação para preparar o aluno para a aprendizagem. Por exemplo: escreva uma ementa de verdade, não apenas técnica para preencher os campos da plataforma. Fará diferença para o aluno entrar num curso sabendo exatamente o que se espera dele e o que ele pode esperar como resultado.
  • Use a comunicação para entender o que está acontecendo no seu projeto. Por exemplo: crie uma avaliação de reação específica para o seu curso, com perguntas que vão trazer inputs importantes para o desenvolvimento dos projetos de educação e, mais importante, leia a avaliação. Evite avaliações de reação padronizadas.

Mesmo parecendo simples e óbvios, é muito importante não tirar esses detalhes do radar, pois a tendência de muitos projetos é evoluir rapidamente no campo da tecnologia e se afastar cada vez mais do ser humano que é o aluno. Perder essa proximidade é como entrar numa sala de aula e ninguém lhe dar um simples “bom dia” e nem sequer se apresentar. Certamente você teria mais dificuldade e menos vontade de se engajar nesse contexto.

O verdadeiro desafio de colocar aprendizados em prática

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Em 2012 participei de um workshop que ensinava aos participantes uma metodologia de comunicação corporativa muito eficiente. Em resumo, o uso dessa metodologia ajuda a apresentar de forma muito convincente uma ideia ou proposta. Meu objetivo, na época, era de entender o workshop presencial para propor uma estratégia para transformá-lo numa experiência online, o que não aconteceu naquela época porque os interesses das duas empresas se afastaram.

Mas eu fiquei realmente empolgado com a metodologia e nas semanas que se seguiram apliquei esse novo conhecimento no meu dia a dia. Obtive sucesso em reuniões importantes na época com a ajuda dessa metodologia. Recebi, inclusive, feedback de colegas dizendo que a forma diferente como apresentei determinada proposta havia sido muito eficiente.

O mais incrível dessa história é que, poucas semanas depois do workshop e de eu ter experimentado os benefícios de ter colocado essa metodologia em prática, aos poucos fui deixando de utilizá-la.

Então, só para entendermos:

  • Eu participei de um workshop no qual aprendi uma metodologia que me encantou.
  • Eu consegui colocar em prática a metodologia e experimentei o doce gosto do sucesso por conta disso.
  • Eu deixei de usar a metodologia.

Aparentemente o workshop havia vencido uma das mais cruéis barreiras que todo treinamento enfrenta: Fazer com que o novo conhecimento ou habilidade seja aplicado no dia a dia, melhorando o desempenho do aluno na vida real.

Mas não foi isso o que aconteceu.

De fato, a transferência do aprendizado é um dos grandes desafios da educação corporativa. E não é para menos, se uma empresa investe em um treinamento, o esperado é que essa iniciativa dê resultados no campo e para isso os colaboradores precisam estar aptos e seguros para aplicar os novos conhecimentos.

Também é fato que poucas equipes e consultorias conseguem dar respostas concretas ou soluções de verdade para essa questão. E isso se dá porque não é possível criar uma fórmula que se aplica a qualquer iniciativa de capacitação para promover a aplicação do aprendizado. Não é possível criar soluções de prateleira para isso. E normalmente, nem equipes de educação corporativa nem consultorias têm o tempo necessário para se aprofundar o suficiente nos projetos para trazer essa solução.

Essa experiência me fez refletir sobre esse ponto e, mais do que nunca, confirmou para mim duas bandeiras que sempre levantei: 1) colocar-se na pele do público alvo é fundamental para conseguir tratar esse tipo de problema; e 2) traduzir os seis princípios da andragogia em soluções simples e aderentes ao público dificilmente te dará uma solução ruim.

Naturalmente, eu só me dei conta de que havia deixado de usar a metodologia quatro anos depois. Voltei a ter contato com a consultoria criadora da metodologia e agora, em carreira solo, criamos a versão online, não sem antes refletir muito sobre o que eu acabei de contar.

Nesse momento você pode estar se perguntando: o que então fizemos para ajudar os nossos futuros alunos a não deixarem de aplicar a metodologia, imaginando que eles também se encantarão com ela.

Basicamente, percebi três coisas. Apesar de o workshop pregar que a metodologia pode ser utilizada para muitos temas, o aluno pode não se convencer de que os seus próprios temas podem ser objeto da metodologia. Para isso, compilamos uma série de casos reais de aplicação prática da metodologia. Outro ponto importante foi deixar mais claro os benefícios que podem ser alcançados, por meio de depoimento e entrevistas gravadas com profissionais de diversas áreas que já utilizaram a metodologia. O terceiro ponto tem a ver com facilitar a aplicação. Para isso, inserimos no workshop um módulo que traz um procedimento coringa, um passo a passo do que deve ser feito.

Universidade sem professor?

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Na semana passada muita gente compartilhou uma notícia da BBC sobre a inauguração da Universidade 42 nos Estados Unidos: a universidade sem professores. Segundo a matéria, trata-se da segunda unidade da 42. A primeira foi inaugurada em 2013 em Paris e já colhe muitos resultados.

Há inúmeros motivos para louvar essa iniciativa. É preciso muita coragem para romper com os paradigmas da educação e propor soluções radicais como essa. É inovador e ponto. A universidade (é universidade mesmo??) conseguiu realizar o sonho de muitos educadores ao concretizar um modelo de aprendizagem por projeto, gameficado, colaborativo e independente da interferência de um professor, tutor etc. Os alunos vão construindo projetos por afinidade e passando por níveis, como se estivessem num jogo. Quando chegam ao nível 21, se formam. São os próprios alunos que se avaliam. A ideia é que o aprendizado ocorra no desenvolvimento do projeto, com aqueles que estão em níveis superiores ajudando os outros a avançar.

Até aí, maravilha. O que tem me chamado a atenção é a forma como as pessoas têm repercutido essa matéria da BBC. Percebi que muita gente tem colocado a questão do “sem professor” como aquele ponto que, de uma vez por todas, vai resolver os problemas da educação. De fato, a ausência do professor faz com que os alunos desenvolvam habilidades que podem ser traduzidas aqui como “aprender a se virar”, o que para mim é uma das habilidades mais valiosas num profissional.

Mas será que a ausência do professor só traz benefícios? Durante todas essas décadas o problema sempre foi o professor e ninguém havia percebido?

O professor tem muitos papéis na educação. O que a 42 está explicitando com o seu modelo é que alguns desses papéis podem ser desempenhados por outros agentes, como os próprios alunos, ou pelo próprio programa/sistema. Nesse caso os alunos estão aprendendo de forma empírica (o que também tem seu valor), mas não se pode desprezar a experiência que um professor pode trazer.

A matéria da BBC relata que, apesar de focados e engajados no desenvolvimento do projeto, muitos alunos não se adaptam ao modelo, se frustram e se estressam ao serem avaliados por outros alunos. Ou seja, do mesmo modo que os métodos tradicionais de ensino frustram muitos estudantes, como afirma a chefe de operações Brittany Bir na matéria da BBC, o sistema da 42 também frustra outros estudantes. E isso é normal. A educação é pessoal. Uns vão gostar de não ter professor, outros não, e isso não tem a ver com a geração.

É preciso lembrar ainda que se a solução para a educação fosse simplesmente colocar muitos alunos para estudar juntos sem professor, os MOOCs já teriam resolvido essa parada. A grande sacada da 42, repito, foi:

concretizar um modelo de aprendizagem por projeto, gameficado, colaborativo e independente da interferência de um professor.

Outro ponto que me chamou a atenção foi a comparação da 42 com empresas como Airbnb e Uber, como modelo de negócio exponencial. Tenho visto essa comparação na repercussão da matéria. Que fique claro, a matéria não faz essa comparação.

O que o Airbnb, Uber, Waze e outras empresas resolveram e com isso tornaram-se exponenciais foi a questão da propriedade. O Airbnb não possui os imóveis, o Uber não possui os carros e o Waze não possui os navegadores. Nenhuma universidade “possui” professores e, mesmo num modelo de contratação, o professor pode abandonar qualquer universidade sem dar muita explicação. As universidades também não possuem o conhecimento. Portanto, não “possuir” professores já faz parte do modelo de negócio. Então o que impede o crescimento exponencial da 42? Na minha opinião: o campus. Entendo que a 42 estaria moldando um modelo de negócio exponencial se não precisasse possuir o campus, os computadores etc.

Enfim, acredito que a 42 está sim criando uma disruptura na educação, mas não pela ausência dos professores ou pelo modelo de negócio, mas sim por criar um modelo incrível de aprendizado colaborativo, auto motivado e muito instigante.

Link para a matéria da BBC: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37797400